Embora existam diversos métodos para a preparação
de matrizes serigráficas, dois desses métodos se
destacam como os preferidos dos serígrafos. São:
a matriz com filme de recorte e a matriz feita pelo processo fotográfico
direto. Antes que esses dois processos sejam explicados aqui,
mencionaremos outros de procedimento mais simples mas que podem
ser de grande utilidade, dependendo do trabalho a ser executado.
Matriz de líquidos bloqueadores
Esse método é mais indicado para a serigrafia artística.
Para desenhistas, ilustradores e pintores que desejem editar quantidades
limitadas de suas obras este pode ser o sistema ideal. Eventualmente
pode ser usado também na serigrafia comercial. Baseia-se
no princípio de que os pequenos espaços livres da
trama do tecido pode ser bloqueados com qualquer produto líquido
ou viscoso que tenha a propriedade de se solidificar depois de
seco. Alguns destes produtos são a laca nitro-celulose
(à venda em lojas de tintas), a cola branca de boa qualidade,
a goma-laca e outras colas. Para preparar este tipo de matriz,
o serígrafo deve riscar no tecido da matriz, com lápis
ou caneta, o contorno do motivo a ser impresso e depois, usando
pincel, preencher as partes a serem vedadas com o líquido
bloqueador. Depois de seca, a matriz pode ser usada. Entretanto,
é importante notar que a tinta a ser usada não pode
conter elementos que diluam ou ataquem de alguma forma o líquido
bloqueador. Por exemplo: uma tinta que contenha thinner não
pode ser usada numa matriz feita com laca nitro-celulose porque
o thinner é o solvente natural deste tipo de laca. Essa
matriz se apresentaria defeituosa logo nas primeiras impressões.
Matriz de filme de recorte
O filme de recorte, numa forma ainda muito rudimentar foi lançado
nos Estados Unidos por volta de l931. Com o decorrer dos anos
foi sendo aperfeiçoado pelo seu inventor Joe Ulano, e por
outras pessoas interessadas no desenvolvimento da serigrafia.
Trata-se de um filme de poliéster no qual foi aplicada
uma camada de tinta colorida e translúcida que, depois
de seca transformou-se numa película de baixa resistência
ao corte e à tração. Uma vez que o filme
de recorte tem um certo grau de transparência, colocando-se
este sobre a arte final e usando-se um estilete bem afiado, pode-se
recortar a película no formato do motivo a ser impresso,
tirando-se fora os recortes das partes da matriz que deverão
permanecer vazadas e mantendo-se no suporte de poliéster
as áreas que posteriormente serão usadas para vedar
o tecido da matriz. A película do fime de recorte é
sensível ao thinner, especialmente o thinner recomendado
pelo fabricante do filme.
O filme pode ser recortado com absoluta precisão por plotters
a partir de desenhos feitos em computador. Mas este trabalho,
antes do advento do plotter, era feito manualmente. Recortar filme
à mão não é fácil e requer
uma boa dose de treino mas com um pouco de habilidade e muito
interesse, qualquer pesoa pode se transformar num bom recortador.
Terminado o recorte do filme, a próxima operação
é a colagem da película colorida no tecido da matriz
. Essa operação é feita da seguinte maneira:
coloca-se o filme recortado sobre uma mesa com a parte colorida
virada para cima; sobre a película coloca-se o quadro já
com o tecido esticado e grampeado, de modo que o tecido fique
em contato direto com a película; molha-se uma boneca de
pano ou algodão no thinner e passa-se essa boneca sobre
o tecido pelo lado de dentro do quadro de madeira. Toma-se o cuidado
de não encharcar demasiadamente o tecido no início,
aumentando-se a quantidade de thinner somente se a aderência
da película ao tecido não se efetuar satisfatoriamente.
A passagem da boneca molhada sobre o tecido deve ser regular,
uma após a outra, de um lado até o outro do quadro
até cobrir todo o tecido.
O que acontece nesta operação é o seguinte:
sendo o thinner um solvente natural da tinta utilizada na fabricação
da película colorida, esta, ao entrar em contato com uma
quantidade limitada de thinner, amolece-se e transforma-se por
assim dizer, numa semi-tinta. Nesta condição a película
tende a se agarrar à superficie com a qual está
em contato, no caso, o tecido da matriz. A secagem é rápida
e depois de seca, a película não se desprenderá
do tecido a menos que este seja encharcado e esfregado com o mesmo
thinner.
Por fim é necessário retirar o filme de poliéster
que serve de suporte para a película colorida. Escolhe-se
um dos cantos da matriz e levanta-se uma ponta do suporte. Puxa-se
essa ponta, no sentido diagonal do quadro, até retirar
todo o suporte.
Eventualmente em alguns pontos, a película pode oferecer
uma certa resistência e não se desprender do suporte.
A solução é molhar aqueles pontos com thinner
e aguardar a secagem.
Retitrado o suporte, faz-se uma checagem geral da matriz. Se
aparecerem furos nos locais onde não deve passar tinta,
vedam-se os furos com laca vedante. Depois é só
fazer o acabamento forrando-se as extremidades internas e externas
da matriz com fita adesiva ou colante.
Recortando a filme de recorte
1 - Trabalhe numa mesa firme e num local bem iluminado. Se possível
utilize uma luminária flexível;
2 - Prenda a arte final na mesa com fita adesiva. O pedaço
do filme a ser recortado deve ser colocado sobre a arte e deve
ser preso também, de modo que nenhum dos dois saia do lugar
durante o trabalho;
3 - Antes de começar o trabalho definitivo, treine recortando
diversos desenhos em pequenos pedaços de flme;
4 - Use um estilete apropriado com lâmina bem afiada (à
venda nas lojas de materiais para serigrafia);
5 - A pressão exercida com o estilete deve ser suficiente
apenas para cortar a película colorida. Evite ferir o suporte
de poliéster;
6 - Trabalhe com as mãos limpas; manchas de substâncias
gordurosas ou grãos de poeira que permaneçam na
película causarão dificuldades na hora da aderência
da película ao tecido;
7 - Mantenha o filme protegido quando não estiver trabalhando
nele para evitar poeira, sujeira e danos acidentais;
8 - Examine cuidadosamente e mais de uma vez o seu trabalho antes
de proceder a transferência da película para a matriz,
comparando-o com a arte final. Não raro descobre-se que
uma ou outra pequena parte não foi recortada. Descobrir
isso depois de feita a transferência representa prejuízo
financeiro e perda de tempo.
Matriz pelo sistema fotográfico direto
O sistema fotográfico direto é o método
mais usado não só no Brasil como também em
todo o mundo. É denominado "direto" porque nesse
caso a emulsão foto-sensível é aplicada diretamente
sobre o tecido da matriz.
A enulsão foto-sensível é um produto químico
viscoso que quando exposto à luz intensa, solidifica-se,
transformando-se numa película dura e impermeável.
Este fenômeno permitiu a invenção da matriz
fotográfica, que por sua vez garantiu à serigrafia
a produção de impressos com altíssima qualidade.
Existem basicamente dois tipos de emulsão: uma para impressos
com tintas à base de água e outra para tintas à
base de solventes. Ambas estão à venda em dois componentes
que devem ser misturados somente uma ou duas horas antes da sua
aplicação no tecido da matriz. Esses componentes
são a emulsão propriamente dita e o sensibilizante.
A proporção correta da mistura é 10% de sensibilizante
para 90% de emulsão.
No processo de gravação da matriz direta (também
chamado de "foto - incisão"), entre a fonte de
luz e o tecido impregnado de emulsão, coloca-se o diapositivo
no qual as áreas referentes ao motivo a ser impresso estão
gravadas em preto. Assim a luz atinge a emulsão somente
através das áreas transparentes do diapositivo.
As partes em preto protegem a emulsão que não tendo
recebido a luminosidade, não se solidifica.
Depois de misturada a emulsão com o sensibilizante, a
solução resultante desta mistura torna-se sensível
à luz. Por essa razão é necessário
trabalhar num ambiente com pouca luminosidade ou iluminado apenas
com uma luz vermelha. É possível gravar uma matriz
utilizando-se uma mesa comum e uma só fonte de luz mas
o ideal é construir ou adquirir uma mesa especialmente
fabricada com esta finalidade. Diversas indústrias produzem
estas mesas com estrutura de madeira ou metal, em vários
tamanhos, com lâmpadas de vários tipos, com tampo
de vidro e até com sistemas de vácuo que servem
para manter juntos a matriz e o diapositivo.
Faz-se o emulsionamento da matriz da seguinte maneira:
1 - Mistura-se 10% de sensibilizante com 90% de emulsão.
Usa-se, para esta mistura, um recipiente de vidro ou plástico
(á venda na Screen & Cia); Mexe-se devagar para evitar
a formação de bolhas de ar e aguarda-se pelo menos
uma hora;
2 - Coloca-se o quadro já com o tecido esticado e grampeado,
na posição vertical e com o auxílio de um
aplicador de emulsão cuja medida corresponde à largura
interna do quadro, aplica-se a emulsão nos dois lados do
tecido. A quantidade de emulsão que se coloca no aplicador
não deve ser demasiada para não provocar transbordamento;
3 - A aplicação é feita puxando-se o aplicador
por toda a extensão do quadro, num só movimento,
de baixo para cima;
4 - Repete-se esta operação duas vezes em cada
lado do tecido;
5 - Põe-se o quadro para secar na posição
horizontal.
Pode-se acelerar a secagem da emulsão colocando-se um
ventilador no ambiente. A tela estará seca quando a aparência
da emulsão for completamente fosca.
Como proceder a foto-incisão
A maioria das mesas apropriadas para foto-incisão têm
tampo de vidro e fonte de luz instalada na parte inferior, embaixo
do tampo. Presumindo-se que o leitor disponha de uma mesa deste
tipo, é o seguinte o procedimento:
1 - Coloca-se sobre o vidro, que deve estar bem limpo, o diapositivo;
2 - Sobre o diapositivo coloca-se o quadro de madeira de modo
que o tecido emulsionado fique em contato direto com o diapositivo;
3 - Coloca-se sobre o quadro uma flanela ou outro pano preto;
4 - Sobre o pano coloca-se uma placa de vidro ou de madeira e
sobre esta, pesos de ferro ou de outro material; esses pesos servem
pra garantir um contato perfeito entre o diapositivo e o tecido
emulsionado;
5 - Faz-se a exposição, ligando-se a fonte de luz.
O tempo de exposição à luz varia de acordo
com o tamanho do quadro, a quantidade e o tipo de lâmpada
existente na mesa e o tipo de motivo a ser gravado. Somente a
experiência levará o serígrafo a saber com
relativa precisão o tempo necessário a cada gravação.
Como auxílio, daremos aqui o tempo empregado usualmente
de acordo com o tipo de lâmpada para matrizes de tamanho
médio (mais ou menos 60X80cm).
Lâmpadas Foto-Flood de 500 watts: 3 a 8 minutos;
Lâmpadas fluorescentes de 40 watts: 3 a 8 minutos;
Lâmpada Halogênio: 30 segundos a dois minutos;
Lâmpada Xenon: 1 a 3 minutos;
Arco Voltaico: 4 a 6 minutos.
Se o motivo a ser impresso contiver traços muito finos,
é preciso muito cuidado e talvez seja necessário
diminuir o tempo de exposição para evitar a penetração
da luz por baixo dos traços.
Revelação
Depois de feita a exposição à luz, revela-se
a matriz colocando-se esta num tanque ou banheira na posição
vertical. Utilizando-se uma mangueira, bombardeia-se o tecido
com jatos fortes de água. Aos poucos a parte não
endurecida da emulsão será expulsa do tecido pelo
jatos d’água. Quando a figura correpondente ao motivo
aparecer bem clara, põe-se a matriz para secar na posição
horizontal.
Depois de seca, procede-se o acabamento da matriz colocando-se
fita gomada nas extremidades, em ambos os lados.
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